Compartilhe nas Redes Sociais

Karing Advogados

Ludopatia e o INSS: O Alarme Social e Previdenciário do Vício em Apostas

fale conosco karing 2

Nos últimos anos, o Brasil tem vivenciado um crescimento vertiginoso no número de pessoas afetadas por distúrbios decorrentes do vício em apostas, especialmente com a popularização das chamadas bets — plataformas digitais de jogos e apostas esportivas. Esse fenômeno tem gerado preocupações não apenas na área da saúde mental, mas também no âmbito trabalhista e previdenciário. Um dado alarmante evidencia essa realidade: o número de auxílios-doença concedidos pelo INSS por ludopatia aumentou em impressionantes 2.300% entre 2023 e 2025, conforme revelou o portal Intercept Brasil.

O que é a Ludopatia?

Ludopatia, ou transtorno do jogo patológico, é uma condição reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um transtorno mental. Caracteriza-se pela compulsividade em apostar, mesmo diante de perdas financeiras expressivas, conflitos familiares e prejuízos à saúde emocional e à vida profissional. Trata-se de uma dependência comportamental que, como outras adições, compromete a autonomia do indivíduo e exige tratamento especializado.

O Perfil dos Afastados e os Impactos no Mercado de Trabalho

Entre junho de 2023 e abril de 2025, foram 276 benefícios concedidos a trabalhadores com diagnóstico de ludopatia. Destes, 73% são homens, com idade entre 18 e 39 anos — um recorte geracional que coincide com a fase mais produtiva da vida profissional. Muitos são chefes de família, com filhos pequenos, o que potencializa os impactos sociais do afastamento laboral por incapacidade.

Além dos benefícios previdenciários, a ludopatia tem desdobramentos jurídicos e trabalhistas. Casos já chegaram à Justiça do Trabalho, como o de um gerente bancário demitido por justa causa após condutas relacionadas ao vício, que conseguiu a renovação do auxílio-doença judicialmente e busca anular sua dispensa. Em outro episódio, um servidor público desviou R$ 1,5 milhão para apostas e, além de responder a processos disciplinares e criminais, foi afastado do trabalho por incapacidade psiquiátrica.

A Previdência e o Sistema de Saúde em Alerta

A explosão de casos expôs uma fragilidade estrutural do sistema previdenciário brasileiro: o INSS não possui, atualmente, diretrizes claras para a realização de perícias psiquiátricas voltadas especificamente a casos de ludopatia. Falta preparo técnico, protocolos de atendimento e, sobretudo, programas de reabilitação profissional que considerem as especificidades do transtorno compulsivo por apostas.

Essa lacuna prejudica tanto os segurados quanto o próprio sistema, que vê seus cofres pressionados por benefícios de longa duração sem uma política efetiva de reinserção no mercado de trabalho. A ausência de uma rede integrada de saúde mental, assistência social e acompanhamento laboral amplia o risco de reincidência e marginalização dos afetados.

A Urgência da Ação Intersetorial

Especialistas em saúde pública, psiquiatria e previdência alertam: é urgente adotar uma abordagem intersetorial que una os esforços da saúde, da assistência social, do trabalho e da previdência para enfrentar a crescente epidemia do vício em jogos. A regulação mais eficaz das plataformas de apostas, a criação de campanhas de conscientização, a ampliação do acesso a tratamentos psicológicos e psiquiátricos e o fortalecimento das políticas públicas de reabilitação são medidas fundamentais para conter esse avanço.

Considerações Finais

A ludopatia deixou de ser um problema pessoal e passou a representar um desafio coletivo, com impactos no orçamento público, no sistema previdenciário e no tecido social. O Brasil precisa agir de forma articulada, reconhecendo o vício em apostas como uma questão de saúde mental grave e crescente. A omissão diante desse quadro custará caro não apenas ao INSS, mas a toda a sociedade.